como dizer não
o meu “não” começa em 78. como o de todos, veio de berço, pessoal e intransferível. o “não” é individual, acompanha cada um desde que nasce. o “não” cresce. no comecinho, ele é um “não” mínimo, um nãozinho. mas o “não” sempre cresce.
o “não” se alimenta dos nossos complexos. de quem a gente vai se tornando e, principalmente, de quem a gente vai deixando de se tornar. sim, porque o “não” tem muito a ver com isso: com o que não é, com o que não somos.
e porque somos brasileiros, colonizados, cristianizados, aprendemos desde cedo a não dizer não. falamos através de atenuantes, de pequenos acordos, de chantagens, mas não dizemos um “não” de verdade, simples e sem outra intenção. difícil dizer um “não” sem medo, um “não” que não saia entre os dentes.
e assim, o nosso “não”, conforme recebe ele mesmo seus nãos, se adequa. passamos a usá-lo como nós mesmos somos: ora o “não” toma forma de escudo, ora é atacado que nem tijolo. ambos os “nãos”, o de se defender e o de atacar isolam a gente do mundo.
não precisa ser assim. atacar e se defender. um “não” cheio de intenção - que quer dizer tudo menos não. o “não” pode ser melhor se for mais claro e não mais alto. aquele “não” que zela por quem se é. não o que afasta o outro, mas o que delimita você.